Estou em Cape Town e ainda não sei falar inglês
Escrevo esta carta da Cidade do Cabo, na ponta da África do Sul, diante de um mar que eu não sei nomear direito na língua que todo mundo à minha volta fala com naturalidade. E vou começar por uma confissão que me custa dizer em voz alta: eu sou pós-doutor, defendi tese fora do Brasil, li milhares de páginas de ciência em inglês. E, ainda assim, não consigo sustentar cinco minutos de conversa nesse idioma sem travar no meio de uma frase.
Durante muitos anos, essa foi uma vergonha guardada a sete chaves. O tipo de coisa que a gente aprende a esconder atrás de um sorriso amarelo e de um “sorry, my English is not good”.
Mas não é sobre mim que eu quero falar hoje. É sobre o seu filho.
A parede que eu nunca consegui atravessar
Eu tentei aprender inglês a vida inteira. Cursinho na adolescência, escola, aulas particulares, aqueles aplicativos que prometem fluência em seis meses, imersão, música, filme sem legenda. Fiz de tudo. E, mesmo assim, sempre esbarrei na mesma parede invisível: as palavras não grudavam. No exato momento em que eu precisava falar, elas simplesmente evaporavam.
O mais cruel é que, ao mesmo tempo, eu gabaritava matemática. Atravessei um doutorado, um pós-doutorado, bancas inteiras. Coisas que muita gente considera difíceis nunca me pararam. O inglês, sim. Sempre ele.
Eu conseguia ler um artigo científico inteiro em inglês. Mas não conseguia pedir um café sem suar frio.
Como é que uma mesma pessoa consegue uma coisa e falha tão feio na outra? Segura essa pergunta, porque ela é o coração deste texto.
A contradição que toda mãe atípica conhece de cor
Se você é mãe de uma criança neurodivergente, já viu essa cena mil vezes. Seu filho decora todos os dinossauros do planeta, mas não copia a lição do quadro. Monta um quebra-cabeça de mil peças, mas trava para amarrar o sapato. Recita cada detalhe do jogo favorito, mas “esquece” o que você pediu há dois minutos. Brilha numa coisa e parece incapaz na outra.
Essa contradição confunde todo mundo. Confunde a escola, confunde a família e, o pior de tudo, abre a porta para o rótulo mais injusto que existe: “ele não se esforça”, “é preguiçoso”, “só falta querer”.
Eu ouvi todas essas frases. Colei todas elas na pele. E preciso te dizer, falando de dentro dessa contradição: nunca foi falta de vontade. Se você quiser entender o tamanho do estrago que esse rótulo faz, já escrevi sobre isso na carta a quem passou a vida sendo chamado de preguiçoso.
Por que o inglês travava e a matemática não
Demorei quarenta e poucos anos, e um diagnóstico de TDAH, para entender uma diferença que parece boba, mas que explica tudo.
Ler me dava tempo. Diante de um artigo, eu podia parar, voltar, reler a mesma frase cinco vezes, respirar. Escrever uma tese é a mesma coisa: você tem tempo para organizar, revisar, consertar. Meu cérebro dá conta disso, desde que ninguém esteja com um cronômetro na minha frente.
Falar é o oposto. Uma conversa acontece em tempo real. Você precisa ouvir, entender, buscar a palavra certa, montar a frase e responder, tudo ao mesmo tempo e em poucos segundos. Isso depende muito de uma coisa chamada memória de trabalho, justamente uma das funções que o TDAH mais atrapalha. Não era o inglês que era difícil. Era a velocidade que ele exigia de um cérebro que funciona em outro ritmo.
Guarda isso, mãe, porque vale para muito além do inglês: quando seu filho vai muito bem numa situação e desmorona em outra, quase nunca é sobre inteligência ou sobre esforço. É sobre o que aquela tarefa específica cobra da atenção e da memória dele naquele instante.
Dessa vez, eu não vou tentar sozinho
Cheguei a Cape Town decidido a encarar o inglês mais uma vez. Só que existe uma diferença enorme em relação a todas as outras tentativas da minha vida.
Dessa vez eu tenho um diagnóstico. E, dessa vez, eu vou usar os remédios que foram prescritos pelo meu médico, com acompanhamento, e tentar aprender de verdade, sem lutar contra o próprio cérebro no escuro.
Não estou te prometendo milagre. Aliás, se tem uma coisa que eu faço questão de repetir aqui no blog é para desconfiar de quem promete cura milagrosa. Remédio não é varinha mágica, e eu honestamente ainda não sei se vou conseguir. Pode ser que eu me atrapalhe de novo. Mas, pela primeira vez na vida, eu não vou estar remando sem entender por que a maré sempre me puxou para trás.
Não é que eu nunca tentei. É que eu tentei a vida inteira com o mapa errado.
A ferramenta que eu nunca tive aos quinze anos, eu finalmente tenho agora. Tarde. Mas tenho.
O que eu queria que você levasse desta carta
Seu filho tem hoje, ainda criança, aquilo que eu só consegui depois dos quarenta: um nome para o que ele sente, gente que entende, e a chance de apoio e tratamento no tempo certo. Se ele recebeu o diagnóstico há pouco e você está perdida sobre o que fazer, respira. Eu escrevi um guia pensando exatamente em você: seu filho acabou de receber o diagnóstico de TDAH, e agora?
Eu cheguei a pós-doutor travando no inglês, sem nunca ter sido compreendido, remando contra uma maré sem saber sequer que existia uma maré. Imagina até onde uma criança pode ir tendo o apoio certo desde cedo, em vez de descobrir tudo isso no fim da linha.
A dificuldade do seu filho não desenha o teto dele. Ela é só uma parte da história e, com o suporte certo, nem é a parte mais importante.
Vou te contar como foi
Prometo voltar aqui para contar essa jornada: um pós-doutor de quarenta e tantos anos, recém-diagnosticado, tentando finalmente aprender inglês na Cidade do Cabo, com tratamento e sem vergonha.
Se der certo, vai ser a prova viva do que o diagnóstico e o apoio na hora certa são capazes de fazer. Se for difícil, vai ser a prova de que essa luta é real, e de que nunca foi frescura, nem preguiça, nem falta de caráter.
De qualquer jeito, você não vai estar sozinha assistindo. E o seu filho também não.
Se este texto falou com você, compartilhe com outra mãe que precisa ouvir isto: a dificuldade do filho dela não é o fim da história. É só o começo de uma que ainda vai ser contada.
Aviso Legal: Este conteúdo tem caráter informativo e pessoal, baseado na minha própria experiência de vida e na minha formação acadêmica em metodologia de pesquisa. Não substitui orientação médica, psicológica ou terapêutica. Não sou médico: sou Pós-Doutor na área de Finanças, e não profissional da área da saúde. Ao longo de toda a minha jornada, sempre confiei e me apoiei em profissionais devidamente habilitados, e é exatamente isso que recomendo a você. O uso de qualquer medicação deve ser feito única e exclusivamente sob prescrição e acompanhamento médico; nenhum tratamento deve ser iniciado, alterado ou interrompido por conta própria. Em caso de dúvidas sobre TDAH ou qualquer questão de saúde, procure um profissional devidamente registrado.
