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Entendendo a Escada Acadêmica: Do "Caderno Único" na Faculdade ao Doutorado na Europa (Sem Saber do TDAH)

06/12/2025 às 06:00 // Diagnóstico Tardio, TDAH e Carreira.

Quando conto que sou Pós-Doutor, percebo que muitas pessoas não têm clareza do que isso significa. É comum confundir uma pós-graduação lato sensu com um mestrado, ou achar que o pós-doutorado é "mais um curso" igual aos outros.

A vida acadêmica é como uma grande escada, onde cada degrau exige um nível diferente de comprometimento, fôlego e, acima de tudo, funções executivas (organização, planejamento, foco) — justamente o calcanhar de Aquiles de quem tem TDAH.

Hoje, quero explicar essa escada para vocês. Mas com um detalhe fundamental da minha história: eu subi quase todos esses degraus carregando uma mochila de pedras invisível. Eu só fui diagnosticado e comecei a tratar o TDAH quando cheguei ao último degrau.

Vamos entender essa jornada:

1. A Base: O Antigo Primeiro e Segundo Grau

Hoje chamados de Ensino Fundamental e Médio. Esta foi a fase da pura sobrevivência. Eu era o aluno inquieto do fundão. Minha estratégia era a procrastinação seguida do pânico: eu não estudava nada o ano inteiro e aprendia a matéria de um semestre em duas noites para passar na recuperação. Funcionava, mas o custo emocional era imenso.

2. A Graduação (A Faculdade)

Este é o primeiro grande degrau da vida adulta, que te dá uma profissão. A faculdade foi uma extensão do meu "modo de sobrevivência" da escola, mas com desafios novos.

A primeira característica clássica do TDAH apareceu logo de cara: a dificuldade em manter o interesse a longo prazo. Comecei cursando Economia. Empolgado no início, perdi o gás quando a novidade passou e as matérias ficaram monótonas. Perto do final do curso, desisti. Mudei para Ciências Contábeis, onde me formei.

Minha estratégia de estudo? Caótica. Eu atravessei toda a graduação usando, novamente, um único caderno para todas as matérias. E ele permanecia quase em branco. Eu não conseguia prestar atenção na aula e copiar ao mesmo tempo.

Como eu passava nas provas? Eu vivia no centro de xerox. Minha tática era copiar o caderno dos colegas organizados (aqueles que sentavam na frente) e conseguir provas antigas para entender o padrão das questões.

Houve um ponto de luz: me apaixonei pela área de Custos. O hiperfoco ativou e eu ia muito bem nessa disciplina. O pesadelo final foi o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Fazer um projeto longo, autônomo, que exigia planejamento de meses... foi uma tortura. Sofri imensamente com a procrastinação, mas, na base do desespero final, consegui entregar.

3. A Pós-Graduação (Onde os caminhos se dividem)

Depois de formado, a escada se divide. E a minha performance mudou radicalmente dependendo do caminho.

A) Pós-Graduação Lato Sensu (Especializações e MBA) São cursos mais práticos e rápidos, focados no mercado. Fiz algumas especializações e, para minha surpresa, fui muito bem. Por quê? O formato favorecia meu cérebro. Eram módulos curtos, com começo, meio e fim rápidos. As avaliações eram trabalhos mais simples e práticos, sem a necessidade de um TCC gigante e complexo. Eu não precisava copiar matéria e a dinâmica era mais ágil.

B) Pós-Graduação Stricto Sensu (Mestrado e Doutorado) Aqui é o caminho da pesquisa profunda para formar professores e cientistas. A régua subiu e o sofrimento voltou com força total. Foi no Mestrado que iniciei minha pesquisa na área de Finanças.

Mas a verdadeira prova de fogo veio no Doutorado. Eu decidi cursá-lo na Europa, em Portugal. E para adicionar uma camada extra de complexidade, o programa envolvia duas universidades em cidades diferentes, distantes cerca de 130 km uma da outra.

Imaginem uma mente sem diagnóstico, lutando contra a desorganização natural, tendo que gerenciar uma tese de alto nível enquanto viajava entre duas cidades constantemente. A logística era um pesadelo, mas a paixão pela pesquisa me manteve de pé. Eu compensava a falta de funções executivas com horas brutas de trabalho, virando noites, sempre no limite do prazo e da exaustão mental.

4. O Topo: O Pós-Doutorado (Pós-Doc)

Muita gente acha que é um "super doutorado" ou mais um título. Não é. O Pós-Doc não é um grau acadêmico (você continua sendo Doutor). É um estágio de pesquisa de alto nível, onde você trabalha com autonomia total na fronteira do conhecimento.

O Ponto de Virada: Foi aqui, no Pós-Doutorado, que a conta chegou. O nível de exigência mental e a necessidade de gerenciar múltiplos projetos complexos simultaneamente colapsaram meus mecanismos de "gambiarra" mental. A ansiedade travou tudo.

Foi nesse momento de crise no topo da carreira que procurei ajuda psiquiátrica. Foi no Pós-Doc que, pela primeira vez na vida, iniciei o tratamento para o TDAH.

Conclusão

Olhando para trás, vejo que escalei uma montanha íngreme sem o equipamento adequado. É possível? Sim, eu sou a prova. É recomendável? Não.

Se você está nos primeiros degraus dessa escada e sente que é muito mais difícil para você do que para os outros, procure ajuda. Não espere chegar ao doutorado para descobrir que você não precisava sofrer tanto para aprender.


Aviso Legal Este relato é baseado na minha experiência de vida pessoal e acadêmica. Sou Pós-Doutor em Finanças. As definições aqui apresentadas são simplificações para fins didáticos. Este texto não substitui a avaliação médica e psicopedagógica para questões de aprendizado e TDAH.

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