A cena se repetia com uma frequência dolorosa na minha vida escolar. O professor entrava na sala, pedia silêncio e começava a distribuir as folhas viradas para baixo. Era dia de prova.
Antes mesmo de ler a primeira questão, meu corpo já reagia. As mãos suavam, o coração acelerava e uma neblina mental começava a se formar.
O mais frustrante não era a falta de estudo. Muitas vezes, eu sabia a matéria. Por ter uma facilidade natural de aprendizado, eu tinha o conteúdo na cabeça. Eu conseguia explicar para os colegas no intervalo, debatia com os professores durante a aula.
Mas a folha de papel em branco na minha frente disparava um gatilho diferente.
Para uma mente com TDAH, uma prova não é apenas um teste de conhecimento. É um teste de resistência, de foco e de controle emocional. O silêncio absoluto da sala, que deveria ajudar, para mim era ensurdecedor. O barulho do relógio, a perna do colega balançando, tudo competia pela minha atenção.
É fundamental ressaltar o contexto da época. Hoje, felizmente, existem protocolos, leis e adaptações para alunos neurodivergentes. Mas no meu tempo de escola, isso não existia.
Eu nunca tive tempo extra. Nunca fiz uma prova adaptada. Nunca tive o direito a uma sala separada ou ledor. As condições que me eram impostas eram rigorosamente idênticas às dos meus colegas neurotípicos. Eu corria a mesma maratona que eles, sem saber que estava carregando uma mochila de pedras nas costas que ninguém via.
E então vinha a ansiedade. O medo de errar, a pressão do cronômetro — que era igual para todos —, a leitura das perguntas longas que eu precisava reler três, quatro vezes para entender.
Muitas vezes, eu sabia a resposta, mas não conseguia organizá-la no papel. Outras vezes, o branco era total. Eu entregava provas incompletas ou com erros bobos de atenção, sabendo que era capaz de muito mais.
Se você é pai ou mãe e vê seu filho indo mal nas provas, mesmo sabendo que ele estudou, considere que o problema pode não ser falta de conhecimento. Pode ser o formato. Pode ser a ansiedade.
Eu sobrevivi a esse sistema rígido. Aprendi, aos trancos e barrancos, a respirar fundo e a tentar focar em uma questão de cada vez. Foi um caminho solitário e exaustivo. Hoje, com o diagnóstico, entendo que aquela criança ansiosa diante da prova não era incapaz. Era apenas uma mente neurodivergente lutando para funcionar em um sistema padronizado que não oferecia concessões.
Aviso Legal
Este relato é baseado na minha experiência pessoal como Pós-Doutor diagnosticado tardiamente com TDAH. Não sou profissional de saúde. Se você ou seu filho enfrentam dificuldades semelhantes, procure orientação de médicos e psicólogos para avaliação adequada.
